Futuro da governança inclui empresas menores no mercado de capitais e evolução da gestão de risco

Evolução tecnológica e o aumento das incertezas geopolíticas devem forçar as empresas a revisitarem a matriz de riscos mapeados pela gestão
Pessoas : Flávia Mouta e Daniel Maeda, B3, e Antonio Garcia, Embraer
Flávia Mouta e Daniel Maeda, B3, e Antonio Garcia, Embraer

O mercado brasileiro de capitais passa por uma nova fase. Depois de décadas marcadas pelo fortalecimento da governança corporativa e pela consolidação de boas práticas entre as grandes companhias, o desafio agora é ampliar esse modelo para empresas menores. Nos próximos 25 anos, segundo executivos, essa evolução da governança será marcada pela democratização do acesso ao mercado e, com a evolução tecnológica e o aumento de riscos geopolíticos, por uma revisão na matriz de riscos mapeados pela gestão.

O futuro da governança das companhias abertas e a evolução do mercado de capitais foi tema durante painel no 26º Congresso IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa). Falando das expectativas sobre o que vem pela frente a respeito da governança e como o mercado de capitais pode ajudar companhias de diferentes portes a amadurecer nesse cenário, Flavia Mouta, diretora de Emissores e Relacionamento da B3, citou o Fácil, regulamentação recente da CVM que traz a simplificação para companhias de menor porte. Para Daniel Maeda, superintendente Jurídico Regulatório da B3, essa proposta é parte de um futuro que já está acontecendo.

“Cheguei a participar dessa discussão ainda na CVM, mas o Fácil é um pouco do futuro que já começa agora. A CVM vem trazendo para si e para o mercado regulado essas reflexões. A verdade é que as companhias menores não acessam esse mercado e a CVM não queria que o mercado fosse só para as grandes”, disse, Maeda, comentando que a norma também trouxe regras a serem seguidas. “A CVM foi bastante ambiciosa no que entregou.”

Para o executivo, agora da B3, nessa “esteira do futuro” é inevitável que essas companhias menores também ganhem espaço no mercado. Nessa linha, embora haja simplificações para abertura de capital, oferta pública inicial (IPO), as simplificações são maiores no âmbito de dívida, pontua Flávia, da B3. “Esperamos estar em outro patamar no ano que vem, que diz respeito a emissão de dívida de empresas menores”, disse.

Na visão de Flávia, da B3, a governança corporativa vai continuar evoluindo nos próximos anos, mas numa “roupagem diferente”, para absorver temas como evolução tecnológica, e será vista como uma ferramenta que agrega valor no longo prazo para a companhia. “Vai deixar de ter uma concepção exclusivamente estrutural ou de processo dentro da companhia e ela, de fato, vai ser incorporada como agregadora de valor, junto do negócio”, disse, em entrevista à Capital Aberto.

Já em uma visão retrospectiva, Antonio Garcia, vice-presidente executivo-financeiro e de Relações com Investidores da Embraer, relembra que a empresa possui capital aberto há décadas e está no Novo Mercado desde 2006, citando os impactos da governança na companhia. “Governança agrega valor, não tenho dúvida disso, desde que ela seja feita não só em relatório de administração, formulário de referência”, afirma o executivo, dizendo que a mudança deve ser prática, algo que foi implementado na própria Embraer. “Acho que também evoluímos nisso. Nosso conselho tem competências para os próximos 5, 10 anos da companhia e até nosso relacionamento como companhia, como conselho, melhorou.”

Para Garcia, o tema governança tem trazido cada vez mais segurança ao mercado, especialmente para o investidor. Na Embraer, 85% da base de investidores é estrangeira. O maior acionista possui 6% das ações, e não há um acionista de referência. “É muito diversificado. Só conseguimos isso mostrando que temos governança, que somos uma empresa segura. É vivendo essa governança que transbordamos isso e o investidor acaba percebendo”, diz. Para ele, isso não vale apenas para equity, mas para a renda fixa também, pontuando que a própria Embraer está próxima de captar em patamares de spread que companhias norte-americanas por esse fator.

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O executivo da Embraer acredita que, nos próxims anos, a gestão de risco deve cada vez mais se tornar foco das empresas, e que a questão ambiental, apesar do enfraquecimento da temática ESG, estará cada vez mais atrelada à estratégia de produtos e serviços nas empresas. O uso de novas tecnologias, como IA, também estará no radar. “É um equilíbrio entre uso das tecnologias e a perpetuidade da empresa”, diz.

Flávia também acredita que a gestão de riscos será cada vez mais incorporada nas empresas. Embora a prática já existisse, o surgimento de novos riscos no mapa exigirá das companhias uma adaptação. “Para as companhias que, de fato, vivem a governança corporativa no dia a dia, gestão de risco é básico. Mas, anos atrás, risco geopolítico não aparecia nos rankings de riscos corporativos. Hoje, em muitas empresas, é top 1, top 2, top 5, no máximo. Esses riscos vão se atualizando. Gestão de risco ainda vai ser uma temática muito importante dentro da governança, mas sobre os riscos que estamos falando, acho que isso vai se modificando com o tempo”, opina a executiva.

Por parte das empresas de médio e pequeno porte, Maeda também cita o uso de tecnologia e propósito bem-definido como itens essenciais e que devem ganhar mais visibilidade. Para ele, ainda é necessário “não burocratizar demais” a entrada dessas empresas no mercado. “A governança nunca vai funcionar de maneira homogênea para diferentes companhias. O fato de a CVM ter que regular isso, acaba travando muito. Você acaba colocando uma barra que não vai encaixar todo mundo”, diz, citando a regulação de fundos de Private Equity, que embora sejam considerados veículos de aprimoramento da governança para as investidas, isso muda a depender do tamanho da companhia.

Na visão de Maeda, para os próximos anos, há uma grande oportunidade para chamar a CVM para uma nova conversa e falar sobre as necessidades das diferentes empresas que navegam pelo sistema. Os executivos citaram ainda o papel do investidor institucional, apontando alguns dos itens observados por esse público no mercado, entre eles, conhecer a empresa.

Novo Mercado

Após a rejeição das companhias em votação sobre as mudanças no regime do Novo Mercado da B3, a instituição não tem previsão de uma nova rodada. O motivo, para muitos, é o cenário volátil e o ambiente de alta de juros, que tornou a gestão das empresas mais reticentes em alterações que possam aumentar custos. A rejeição, no entanto, não significa falta de maturidade do mercado, na visão de Flávia Mouta.

“O mercado brasileiro é um mercado muito maduro. Acho que um exemplo disso foi a discussão enfrentada para avançar ou não avançar neste momento as regras do novo mercado. O silêncio me assusta mais. Acho que todo esse movimento é natural”, disse a executiva, em entrevista à reportagem. Para Flávia, as companhias entenderam que não era a hora de fazer nenhum tipo de modificação no regulamento, que, inclusive, é relativamente atual, de 2017, com um ajuste pontual em 2023.

“Em termos históricos, é um regulamento já bastante moderno. Inclui todas as regras de fiscalização e controle, comitê de auditoria, compliance, gerenciamento de riscos. Era um aprimoramento daquele conjunto que já é bastante significativo, bastante robusto. A gestão de cada companhia tem esse direito de votar, de se posicionar, e não têm a obrigação de aprovar”, complementa.

A companhia não tem uma previsão sobre uma nova rodada de proposições de mudança no regulamento, mas, com a chegada das eleições em 2026, tornando o cenário volátil, é possível que alterações entrem no radar apenas em 2027. O que a B3 pretende, no momento, é atualizar a forma de votação dessas regras.

“Um compromisso que a gente assumiu com as empresas é discutir a forma de votação, que é a mesma forma de votação há 25 anos, desde a origem do novo mercado. Será que ela continua adequada? Essa discussão que a gente vai fazer agora. Ainda em 2025, até o final do ano”, conta Flávia.

Reprodução de: Capital Aberto

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