Economia, política e tecnologia: os desafios da gestão para 2026

O ano de 2026 chega com a promessa de intensas transformações na gestão dos negócios. Em um período no qual as perspectivas econômicas não são tão favoráveis, o cenário político se agita com eleições e a revolução tecnológica continua acelerada, os profissionais de Administração precisarão ir muito além do planejamento.

Por isso, diante de tantas questões incertas, será necessário desenvolver a criatividade para encontrar oportunidades no mercado, entender os sinais de alerta dentro da política e dominar a inovação que segue em curso.

Para ajudar o gestor a aprimorar essas habilidades e descobrir as principais tendências econômicas, políticas e tecnológicas que moldarão os ambientes corporativos, sejam eles públicos ou privados, a ADM PRO reuniu especialistas que expuseram contextos reais sobre aquilo que se pode esperar de 2026. Confira.

IMPACTOS ECONÔMICOS
Marcel Somileo

No pilar da economia, 2026 será um ano marcado por grandes transformações estruturais e incertezas. Uma das principais mudanças é o início da vigência da reforma tributária, que visa reestruturar o sistema de impostos no país.

Com a reforma, haverá a substituição dos atuais tributos sobre o consumo (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) por dois novos: o CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) – de competência federal; e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) – compartilhado entre estados e municípios. Eles formam o chamado IVA Dual (Imposto sobre Valor Agregado), um modelo inspirado em práticas internacionais que visa simplificar o processo, reduzir a complexidade e aumentar a transparência.

Embora a promessa seja de simplificação e neutralidade, especialistas apontam que a fase de transição não será tão simples assim. Segundo Marcel Solimeo, economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo – ACSP, a reforma impactará a gestão dos negócios de duas formas, sendo a primeira delas burocrática. “As empresas vão ter que administrar dois sistemas paralelos, o que significa dobrar o trabalho que já têm”, explica.

O outro impacto será o acréscimo fiscal. Solimeo conta que, para alguns setores, principalmente o de serviços, a previsão é de aumento de carga tributária sob o argumento de que ele é menos impactado atualmente, ignorando os custos sociais e de mão de obra.

As micro e pequenas empresas do Simples Nacional também serão afetadas. “Organizações que atuam no meio da cadeia precisarão sair do Simples para gerar crédito, aumentando a burocracia. Já o pequeno comércio, na ponta da cadeia, terá dificuldade para competir com grandes supermercados por não usufruir dos mesmos créditos”, revela o economista.

Diante desses desafios impostos pela reforma, as empresas precisam se preparar para evitar surpresas. Para isso, devem realizar diagnóstico fiscal, atualizar sistemas, revisar contratos com fornecedores e clientes, investir em compliance e na capacitação dos seus profissionais. “O administrador lidera esse processo, coordenando áreas e garantindo eficiência operacional”, comenta Arnaldo Marques, coordenador do MBA de Gestão Financeira e Econômica de Tributos da FGV.

Mercado interno e externo

Além das questões que envolvem a reforma tributária, o país também encontra indefinição na economia nacional e internacional, o que dificulta o planejamento, por mais que existam projeções.

No cenário externo, explica Solimeo, há um movimento de reconfiguração dos mercados e parcerias globais, China versus EUA, que afeta a compra e venda de produtos e commodities. Já internamente, o governo promoveu vários aumentos de tributos e há outros encaminhados no Congresso.

Apesar das incertezas, o risco traz oportunidades. Para o economista-chefe, o Brasil tem trunfos importantes em qualquer desdobramento. “Somos o celeiro do mundo. Temos essa vantagem, somos uma província mineral relevante, detentores de terras raras, com recursos para energia alternativa (como solar e eólica), mas precisamos de planejamento”, avalia.

Novas regras para arrecadação do IR

Outro ponto que deve trazer mudanças econômicas é a mudança na tributação do imposto de renda para pessoas físicas. No início de novembro, o Senado aprovou o projeto de lei que isenta do IR quem ganha até R$ 5 mil mensais e reduz alíquotas para salários de R$ 5.000,01 a R$ 7.350,00. Segundo Marques, coordenador da FGV, a medida aumenta a renda disponível, beneficiando o consumo em setores essenciais e estimulando a economia, principalmente para as classes C, D e E.

Alexandre Sarquis

Como toda mudança, no entanto, a isenção tem prós e contras. Entre os pontos positivos estão o alívio fiscal, o estímulo ao consumo e a justiça tributária. Já os contras englobam a perda de arrecadação, o risco de aumento de tributos indiretos e a pressão sobre o orçamento público. “A ideia da medida é compensar a referida perda de arrecadação com a instituição de nova hipótese de incidência sobre altas rendas, mediante a aplicação do IRPFM – IR da Pessoa Física Mínimo”, explica o coordenador.

IMPACTOS POLÍTICOS

Em um ano de eleições gerais, em que mais de 150 milhões de brasileiros irão às urnas para escolher o próximo presidente da República, assim como governadores, senadores e deputados federais e estaduais, o planejamento estratégico das empresas pode ser significativamente impactado.

O cenário político polarizado, com alta taxa de juros e a incerteza sobre a tendência do governo (liberal ou estatizante) exige muita cautela das empresas. “Os administradores precisam fazer uma ‘sintonia fina’ no planejamento estratégico, atentos aos sinais do Congresso e da economia”, recomenda o Adm. Andrea Matarazzo, gestor com ampla experiência nos setores público e privado.

Com isso, ao planejar a gestão dos negócios com foco no pleito de 2026, o administrador deve levar em conta a interação e o equilíbrio entre as dimensões fiscal, regulatória e de governabilidade. “É usual que pressões eleitorais induzam aumentos de gastos. Porém, no atual quadro de endividamento do país, qualquer sinal de flexibilização do regime fiscal ao qual o governo se comprometeu tende a elevar o prêmio de risco, alongar a curva de juros e pressionar o custo de capital, que já é elevado”, explica o professor de direito administrativo na FIPECAFI, Alexandre Sarquis.

Desafios na gestão pública

Para Matarazzo, o ano eleitoral é o mais difícil para o administrador público sério e consciente, que sofre pressões e ameaças e, ainda, precisa lidar com a expectativa de continuidade ou descontinuidade de projetos.

Ele explica que o gestor de carreira (concursado) sabe que a chefia pode mudar e, por mais que permaneça o mesmo governo, a chegada de um novo ministro muitas vezes altera completamente a política. Já para o gestor que atua em cargos de confiança, a incerteza é ainda maior. “O ideal seria que o funcionário de carreira, que desempenha funções de Estado, não sofresse pressão política e perseguições”, comenta o administrador.

É nesse contexto de instabilidade e pressão que a manutenção da gestão e a continuidade dos projetos de longo prazo se tornam um desafio. Para mitigar rupturas, Sarquis recomenda que as iniciativas sejam ancoradas em instrumentos de longo prazo (PPA), com documentação técnica, avaliação de impacto e governança por resultados. “Comissões formais de transição ajudam a preservar trajetórias e reprogramar metas sem paralisar entregas”, diz o docente.

Apesar dos inúmeros desafios que a área pública impõe aos profissionais, Matarazzo recomenda que administradores talentosos se interessem pelo setor, participem de debates e façam carreira. “É uma área fascinante pela sua complexidade e dimensão, no qual o gestor pode fazer a diferença na vida das pessoas, com sua capacidade e experiência administrativa. O Brasil precisa desses talentos.”

Fake news

Como se não bastassem as variáveis normais já esperadas para o período eleitoral, os gestores agora também precisam lidar com as fake news que, segundo Matarazzo, podem afetar a percepção do mercado, a confiança do consumidor e até a capacidade de as empresas gerenciarem crises.

A amplificação de conteúdos falsos nas redes sociais, especialmente em períodos eleitorais, gera distorção de expectativas, queda da confiança do consumidor e choques reputacionais. “A resposta efetiva para esse problema passa pela presença ativa nas redes sociais, monitoramento contínuo, protocolos de verificação e reação rápida, brand safety, porta-vozes treinados e repositórios próprios de fatos. Na prática, os administradores devem dominar a linguagem digital e integrar a gestão de riscos à estratégia de comunicação”, aconselha Sarquis.

IMPACTOS TECNOLÓGICOS

Na área tecnológica, sempre há algo sendo vendido como a “próxima grande coisa”. No entanto, para Alfredo Passos, doutor em Administração, partner do Atelier Brasil e coordenador do Grupo de Excelência em Inteligência Competitiva – GEIC, do CRA-SP, o que fará diferença no curto prazo se resume a três movimentos convergentes.

O primeiro deles é a hiperpersonalização em escala. Grandes marcas têm usado dados comportamentais combinados com inteligência artificial – IA para ajustar desde cadeias de suprimento até experiências de colaboradores.

O segundo é conhecido como “inteligência aumentada distribuída”. Passos explica que não é apenas ter a IA no topo da pirâmide, mas colocar capacidade analítica nas mãos de gerentes e supervisores. “A plataforma Salesforce, por exemplo, tem feito isso brilhantemente com a integração do Einstein, usando sua tecnologia de inteligência artificial em cada fluxo de trabalho. O resultado? Decisões melhores, mais rápidas, em todos os níveis”, explica o coordenador.

E o terceiro ponto trata-se da computação de bordo combinada com IoT (internet das coisas) industrial. Empresas como Siemens e GE, de acordo com o coordenador do GEIC, estão transformando fábricas em organismos inteligentes que se auto-otimizam.

IA e automação

Para quem deseja remodelar as rotinas de gestão é importante entender que a IA não está substituindo gestores, mas sim mudando o que significa gerir. Um estudo do MIT com mais de 3 mil executivos mostrou que empresas que tratam IA como “copiloto” veem ganhos de produtividade entre 30 e 40%.

Os desafios, no entanto, começam com a “ilusão de competência”. Passos explica que a IA dá respostas tão convincentes que é fácil parar de questioná-la. “Vi uma empresa de logística que confiou cegamente em um algoritmo de roteirização que tinha um viés não detectado. A falta de atenção custou milhões.”

Depois, existe a gestão de expectativas. Todo mundo quer resultados de IA para ontem, mas a implementação séria leva tempo. E, claro, há também o fator humano. Passos conta que tem visto bons gestores se tornarem inseguros quando a IA questiona suas decisões. “Isso exige maturidade emocional e humildade intelectual, qualidades que nem sempre são cultivadas em ambientes corporativos tradicionais”, comenta.

Segurança e privacidade

A facilidade na obtenção de dados também implica em um problema cada dia maior: a segurança e a privacidade das informações. Passos explica que hoje em dia essas questões não são responsabilidade só da TI e que o administrador é um guardião de dados. “O que funciona na prática começa com arquitetura de confiança zero. Nunca assuma que algo dentro da sua rede é confiável. O Google, por exemplo, implementou isso internamente e reduziu incidentes de segurança em 70%”, conta.

Outro ponto importante é a cultura da empresa quanto ao tema, pois o elo mais fraco é sempre o humano. Nesse caso, é preciso desenvolver os profissionais com simulações realistas e incluir a segurança como parte da avaliação de desempenho de todos.

Formação do administrador do futuro

Para que os administradores possam evoluir para acompanhar as rápidas mudanças impulsionadas pelas novas tecnologias, o desenvolvimento de competências é fundamental. “Não precisa saber programar, embora isso ajude. Contudo, é necessário entender o suficiente para fazer perguntas corretas e detectar erros”, aconselha o coordenador do GEIC.

Além disso, ter pensamento sistêmico complexo também é importante, afinal, problemas modernos são interconectados. É aí que a inteligência emocional e cultural formam um diferencial: as máquinas fazem a parte analítica, enquanto a empatia, a negociação e a construção de confiança ficam por conta das pessoas. “Quanto mais tecnologia, mais essas habilidades importam”, revela Passos.

Por isso, o aprendizado contínuo e o pensamento ético devem ser hábitos inegociáveis. “Toda decisão tecnológica tem implicações éticas. Quem ganha? Quem perde? Quais consequências não intencionais? Isso precisa ser reflexo, não reflexão ocasional”, comenta.

Por fim, o coordenador do GEIC lembra que o futuro da Administração não está relacionado a dominar tecnologias específicas, pois elas vêm e vão, mas sim a nunca esquecer que a Administração é sobre pessoas fazendo coisas extraordinárias juntas. Tecnologia é apenas o meio, nunca o fim. “Se mantiver isso em mente enquanto navega essa revolução tecnológica, você não vai só sobreviver, mas também prosperar”, conclui Passos.

Reprodução de:  ADM Pro

 

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