ESG também deve abranger a cadeia de fornecedores – e inação pode custar caro

Gestão responsável da cadeia de suprimentos demanda muito mais do que compromissos corporativos publicados nos relatórios de sustentabilidade e nas coletas de dados por meio de questionários eletrônicos enviados a fornecedores

 

(*) Vanessa Pinsky

A gestão sustentável na cadeia de suprimentos é um problema complexo e sistêmico na agenda ESG. Fatos recentes têm evidenciado ao mercado que a maneira como as empresas conduziam negócios no passado não se aplica mais ao presente. Os riscos ESG relacionados à cadeia de fornecedores, incluindo o trabalho análogo ao escravo e outras violações aos direitos humanos, podem se materializar em perdas financeiras e danos reputacionais de difícil reparação.

Qual é o custo da inação? Esse já pode ser medido por meio de boicotes de consumidores, rompimentos de contratos e crise de imagem.

 O ano de 2023 tem sido bem didático em nos mostrar como os riscos ESG relacionados à inação das empresas em ter políticas e ações efetivas no controle das cadeias de suprimentos impactam os negócios. Sucessivas denúncias de trabalho análogo ao escravo e violações à dignidade humana têm demandado ações de resgate do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal nos setores do ouro, vinícola, madeira, café, cana-de-açúcar e entretenimento entre janeiro e março desse ano.

Nessas situações, romper contrato, prestar solidariedade, repudiar, não compactuar com o ocorrido e alegar que cumpre a legislação é o tipo clássico de posicionamento frágil para o início de uma gestão de crise ESG. Em sustentabilidade, as empresas são responsáveis pelos danos e práticas que violam princípios básicos em direitos humanos na cadeia. Problemas ocorrem, e as empresas devem assumir publicamente logo no início da crise que houve falhas na gestão e que vão tomar atitudes.

Vejo com ceticismo programas frágeis de grandes empresas que tentam priorizar iniciativas de sustentabilidade nos principais fornecedores (top-tiers), sem considerar que os maiores riscos estão nos níveis mais baixos da cadeia, que pode envolver diversas pequenas empresas. É o que os acontecimentos recentes evidenciam.

Atender apenas aos requisitos formais de compliance na contratação de mão-de-obra terceirizada e não ter processos de melhoria contínua, monitoramento e auditoria externa in loco é uma abordagem de gestão insuficiente em tempos de aumento do escrutínio das empresas devido ao crescente controle social e ao tribunal da internet.

 A gestão responsável da cadeia de suprimentos demanda muito mais do que compromissos corporativos publicados nos relatórios de sustentabilidade e nas coletas de dados, por meio de questionários eletrônicos enviados a fornecedores, para prevenção de riscos regulatórios e de compliance.

Destaco algumas das ações ineficazes como cláusulas contratuais determinando padrões na conduta nos negócios dos fornecedores e os campos obrigatório nos sistemas de gestão de compras, que obrigam os fornecedores a clicar em campos que asseguram que o código de ética foi lido e será cumprido.

Nada disso funciona na prática, nem faz a agenda de compras sustentáveis avançar na cadeia de suprimentos. É preciso estabelecer programas estruturantes com metas e métricas, processos de monitoramento robustos baseados na construção de uma agenda positiva junto com os fornecedores.

Além disso, não é possível identificar violações de condições dignas de trabalho de dentro dos escritórios e do home office. Gestores de supply chain precisam ir a campo checar o que está ocorrendo. Garantir os direitos humanos dos trabalhadores terceirizados, que está previsto em lei, deveria ser premissa de quaisquer negócios.

Não existe solução simples para problemas complexos. O estabelecimento de compromissos e metas de longo prazo, o envolvimento de todo time de suply chain, desde ações de capacitação, definição de incentivos até o estabelecimento da estratégia e KPIs, uso de tecnologias e rastreamento, apresentam-se como boas práticas de mercado para as empresas avançarem em programas efetivos de gestão sustentável na cadeia de suprimentos.

Se não for pelo propósito e respeito aos direitos humanos, que as decisões executivas sejam tomadas em função dos riscos econômicos e reputacionais que podem se materializar com a falta de controle na cadeia produtiva.

*Vanessa Pinsky é especialista em Sustentabilidade e ESG, consultora, mentora, professora e palestrante.

 Reprodução de: Época Negócios

 

Compartilhe: